Quando eu era criança, via meu pai chegar de manhã cedinho com buquês de flores para minha mãe. Nunca eram flores impunes, isoladas de um contexto: por muito tempo o meu pai não foi um bom marido e a cada grupo de flores envoltas em papel celofane barato, vinha também o perfume da ressaca dos dias que viriam. Eu vivia numa permanente confusão infantil por não saber o que estava acontecendo (e ninguém me falava nada), a pena profunda que eu sentia do meu pai (sim, eu sentia muita pena dele por ele ser quem ele era) e a incompreensão de porque afinal uma mulher especial, linda e inteligente como a minha mãe simplesmente não caía fora (coisa que só fui entender muitos anos depois quando eu própria estive em um relacionamento ruim).
Quando eu fiz dezesseis anos, comecei a namorar um cara muito engraçado que nunca entendeu por que afinal eu não queria flores. Eu fazia piadas ambientalistas (você arrancou a pobre plantinha) e mórbidas (que graça tem em ganhar uma planta morta que vai murchar e feder? me dê um cd, um cd não morre.). Depois dele namorei um cara mais velho que insistia em me dar flores com cartões derramados mesmo que eu disesse que flores não eram a minha parada. Depois namorei outro cara e ele tentava disfarçar as flores as roubando de quintais e as arrancando de árvores em arroubos românticos que alguns meses depois se transformariam em gaslighting e obsessão.
Quando empresas, governos e organizações distribuem rosas vermelhas no dia oito de março eu tenho essa mesma sensação angustiante, de mulheres premiadas por aguentarem essa barra pesada que é estar em um corpo feminino 24h por dia. A minha leitura então residia aí: flores para mim eram aquele prêmio de consolação que me davam quando eu me submetia por ser mulher e não para celebrar a mulher que eu era. Só que ser a mulher que eu desejo ser merece sim uma celebração. Então eu resolvi me reconciliar com as flores.
A cada flor que eu receber eu vou escrever para uma mulher que merece ser festejada e explicar por que ela a merece. Cada mulher que está pisando nessa terra, deve ter sua individualidade, suas contradições e sua luta festejadas. Eu quero estar coberta de flores, eu quero estar encharcada de beleza. Não essas flores murchas que nos distribuem. As flores vivas, as flores que nascem nos topos das árvores e se transformam em frutas, as flores que desafiam a aridez do deserto brotando nos cactos, as flores minúsculas e amarelas que decidem nascer nos cantos do asfalto. Eu mereço, vocês merecem. Vamos fazer isso então? Marquem no facebook três das mulheres especiais da sua vida que merecem ganhar uma flor no dia 8 de março. Digam a elas o quão elas são importantes, e por que o seu eu feminino muda o mundo.
Eu já comecei. Vamos lá?