Um filme de terror nunca é apenas um filme de terror. O gênero geralmente dá vida à sociopatas, serial killers, monstros e fantasmas como metáfora para nossas falhas – humanas, sociais, morais. Um filme de terror está lá para escancarar o nosso lado sombrio e não deixar dúvidas a respeito dos demônios que habitam em nós, mesmo que como exercício cotidiano a gente tente esconder, dopar ou esquecer que esses demônios existem. Zumbis nos mostram como somos uma sociedade embotada por regras estúpidas e excesso de consumismo, psicopatas são a representação da nossa natureza dúbia, o jekkyl and hyde modernos, fantasmas e monstros podem facilmente se tornar a encarnação de decisões erradas e sentimentos de ódio que voltam para nos assombrar.
The Babadook já pode ser considerado um dos grandes títulos do gênero, não só pelo medo que provoca – William Friedkin declarou em uma entrevista para Rolling Stone que ficou apavorado ao ver o filme – mas por tocar em um tema extremamente delicado e urgente: a maternidade. Não por acaso, The Babadook é dirigido e escrito por uma mulher.
Jennifer Kent possuía uma carreira sólida porém pouco brilhante como atriz, com papeis pequenos em seriados e filmes. Um belo dia assistindo Dançando no Escuro de Lars Von Trier ela decidiu se tornar diretora. Trabalhou como assistente do diretor dinamarquês em Dogville e em 2005 lançou o curta Monster premiado em diversos festivais no mundo inteiro e que foi a semente para o longa The Babadook.
Com uma sinopse simples “Uma mãe solteira cuida do seu filho problemático e ambos são perseguidos por uma entidade demoníaca” cada cena do roteiro é construída para explorar algum aspecto sombrio da maternidade. Nada fica de fora: o desespero pelas noites insones, a falta de espaço físico e emocional, a pouca disponibilidade para se permitir amor e sexo, a comparação com outras mães e outras crianças mais adequadas ou comportadas que o seu filho, o medo patológico de machucar o seu filho física e emocionalmente e finalmente a dúvida de ser capaz de zelar por essa criança e falhar nessa que é a principal tarefa da maternidade – o amor.
Amelia, a protagonista de The Babadook, é uma enfermeira que cuida sozinha do seu filho de seis anos, Samuel. Samuel possui um comportamento errático, tem dificuldades para dormir e possui um medo irracional de uma criatura que vive em seu armário. Em uma noite, Sam encontra um livro pop up com a história de Babadook, um monstro assustador. Por não acreditar que o livro tenha um conteúdo adequado para o filho, ela esconde o livro em cima de um armário. A partir daí Samuel se mostra cada vez mais problemático, com birras demoníacas, problemas escolares e ainda mais obcecado em proteger sua mãe de Babadook, usando para isso brinquedos perigosos que atiram dardos e bolas. Conforme a relação entre mãe e filho se acirra, eventos estranhos começam a acontecer – a resistência falha fazendo as luzes piscarem, cacos de vidro aparecem na comida, objetos se movem. A mãe atribui os eventos ao filho. O filho atribui os eventos à presença nefasta de Babadook, a quem a mãe inadvertidamente teria “deixado entrar”.
Com uma atuação militante a respeito da presença da mulheres na direção de filmes e principalmente nos filmes de terror e suspense, Jennifer Kent teve a coragem de construir uma história a respeito do último tema tabu do feminismo – a mãe. Seu roteiro preciso e direção atenta, mostram um olhar feroz sobre o exercício da maternidade num contexto urbano e de classe média. Uma maternidade assustadora, violenta, exigente e extremamente solitária que ganha ainda mais profundidade com as atuações de Essie Davis como Amelia e Noah Wiseman como Samuel.
Existe saída ou alternativa para fugir ao horror da maternidade contemporânea? Essa é uma pergunta que Amelia deve responder ao fim do filme e a pergunta que Jennifer Kent nos lança sem dó nem piedade.
O filme, lançado em janeiro de 2014 da midnight premiére de Sundance, arrebatou público e crítica no último ano, ganhando prêmios em diversos festivais, mas infelizmente não tem previsão de data de estreia no Brasil. Para assistir, fik a dik: a internet é muito generosa para os amantes dos filmes de terror brazucas.
Publicado originalmente no Leilas.