Ele me falou sobre o Consenso de Washington e eu ri desregradamente – prova inequívoca da minha loucura. Eu, que passei a primeira metade da minha vida adulta sendo educada para fazer ruir o neoliberalismo, que convoquei assembléias secretas, que fiz reuniões comunistas aos quatorze anos em um parquinho noturno assombrado pelas crianças que já dormiam e pela criança que eu deixava de ser, rindo, justamente do famigerado Consenso de Washington. Ele me fala sobre a guerrilha, me deu um codinome de flor e eu só sei achar graça e ficar religiosa, construindo um altar dos cacos, das nossas radiografias, das nossas conversas, das nossas fodas passadas e das nossas fodas futuras.
Está aí um bom tema, as fodas futuras.
Como me encontro agora sou um cruzamento perfeito entre a noiva e a puta, que possuem em comum o manejo do tempo. Ser noiva e ser puta se constitui no tempo da espera, esperam todas as noivas da Nossa Senhora do Brasil, esperam todas as putas da Vila Mimosa. A maioria ignora esse laço, mas estou aqui, nesse campo de interseção tentando que ambas se reconheçam a esperar a foda que vem.
Outro bom tema é não saber mais escrever.
Já que não escrevo mais. Desaprendi. Soube que uma atriz fazendo um teste de elenco disse: não fui bem, mas o texto não ajuda. Provavelmente ela tem razão, meu texto não ajuda mais ninguém, meu texto agora é uma tentativa arqueológica de reconstituição de um tempo espaço lugar onde esse homem, a quem eu escolhi de forma arbitrária e violenta, esteja inteiro para me comer até o dia clarear.
Outro tema interessante: a ausência da razão
Ouço músicas tristes, escrevo poesia ruim, bebo vinho às onze da manhã, fico nua na frente do ventilador, ando com os pés na água e a Urca inteira parece pronta para te receber, meu bem, mesmo que a Urca ainda nem saiba que vai colapsar, afundar, se auto destruir, assim que você tocar o meu interfone. (É isso que faço quando não estou escrevendo).
Ainda posso falar da pesquisa
Santo Agostinho, Stendhal, Shoppenhauer, Nelson Rodrigues, pesquisas de uma universidade apócrifa da Inglaterra, um TedX no Netflix, Sonda Rhimes, Regina Navarro Lins, Simone de Beauvoir, Barthes, Barthes, Barthes, Goethe, Hatoum, Adélia Prado, Godard, Érika Lust, Cristopher Boe, Gaspar Noé, ligo para minha analista, Raduam Nassar, Sandor Márai, Marguerite Duras e eu fico sabendo como funciona, e ainda assim nada funciona.
E antes que eu me esqueça:
Caso me perguntem como é se apaixonar depois dos trinta, eu responderei que:
CRASH.
Todos temos o direito de sofrer os piores acidentes.